Por ocasião do 46° aniversário do ínicio da heróica Guerrilha do Araguaia, compartilhamos a matéria do Jornal A Nova Democracia edição n°88.

Em 12 de abril de 1972 ocorreu o primeiro enfrentamento armado da heroica Guerrilha do Araguaia. Maurício Grabois, dirigente do Partido Comunista do Brasil, membro de seu Comitê Central, da sua Comissão Militar e Comandante da Guerrilha, registrou assim o feito em seu Diário*:

“30/4 – Começou a Guerra Popular a 12/4. O inimigo, possivelmente informado por alguma denúncia, atacou de surpresa o Peazão (na Faveira, na beira do Araguaia) entre as 15 e as 16 horas daquele dia. Avisado com poucas horas de antecedência, pela massa, o Destacamento “A” retirou-se organizadamente para a mata. O Grupamento daquele Destacamento, que estava sediado no Peazão, dada a superioridade do adversário, não ofereceu combate, mas salvou seus efetivos, seu armamento e diversos materiais.”

Assim foi deflagrada a luta armada dirigida pelo Partido Comunista do Brasil entre os anos de 1972 e 1974, que mobilizou centenas de massas camponesas na região sul do Pará, conhecida como ‘Bico do Papagaio’, e animou milhares de brasileiros na luta contra o regime militar fascista pró-imperialista. A resistência despertou um ódio visceral dos generais gorilas, que deslocaram para aquela região dezenas de milhares de efetivos militares e potente arsenal de guerra, com que realizaram três campanhas para reprimir e aniquilar os guerrilheiros e seus apoiadores.

Centenas de camponeses foram barbaramente massacrados e 69 guerrilheiros, militantes do Partido Comunista do Brasil, foram igualmente torturados e assassinados. Vários destes tombaram em combate e sua imensa maioria deu inapagáveis exemplos de firmeza, bravura e heroísmo.

A epopeia revolucionária do Araguaia não é somente um marcante acontecimento histórico. Ela representa um marco político e ideológico da luta de classes em nosso país, representa o estágio mais avançado alcançado pelo proletariado brasileiro e sua vanguarda em sua luta pela revolução brasileira até os dias atuais.

Pedro Pomar, dirigente do Partido Comunista do Brasil, foi quem de forma mais profunda e acertada avaliou a experiência do Araguaia. Em seu balanço, apresentado na reunião do Comitê Central do partido em meados de 1976 e retomada em dezembro do mesmo ano (quando o próprio Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Franco Drummond foram brutalmente assassinados no chamado ‘Massacre da Lapa’), Pomar destacou:

“Ressalto, antes de tudo, a firme decisão do CC em realizar a tarefa que aprovou, de implantar, em algumas áreas do mais remoto interior brasileiro, dezenas de camaradas que demonstraram disposição de suportar todos os sacrifícios, a fim de prepararem e desencadearem a luta armada. (…) A experiência do Araguaia representou, inegavelmente, uma tentativa heroica para criar uma base política e dar continuidade ao processo revolucionário, sob a direção de nosso Partido. Tinha em vista formar uma sólida base de apoio no campo e desenvolver o núcleo de um futuro exército popular, poderoso, capaz de vencer as forças armadas a serviço das classes dominantes e do imperialismo ianque.”

Logo criticou, por mais duro que isso fosse, os sérios erros de concepção que resultaram no aniquilamento das forças revolucionárias no Araguaia e na derrota da Guerrilha:

“Tudo leva a crer que a guerrilha se iniciou como um corpo a corpo dos comunistas contra as tropas da ditadura militar. E assim continuou quase todo o tempo. Aí reside, a meu ver, o maior erro, o mais negativo da experiência do Araguaia. Pois a conquista política das massas não pode ser efetuada só depois da formação do grupo guerrilheiro. Tampouco este deve ser constituído única e exclusivamente, mesmo que seja apenas no princípio, de comunistas. E não se diga que a orientação contida nos documentos e resoluções do Partido não seja cristalina a respeito. Tanto pela letra, como pelo espírito, os documentos partidários essencialmente dirigidos contra as teses pequeno-burguesas e foquistas, indicam, sem margem de dúvida, que: 1) a guerra popular é uma guerra de massas; 2) a guerrilha é uma forma de luta de massas; 3) para iniciá-la, ‘mesmo que a situação esteja madura, impõe-se que os combatentes tenham forjado sólidos vínculos com as massas’; 4) a preparação ‘pressupõe o trabalho político de massas’; 5) os três aspectos — trabalho político de massas, construção do Partido e luta armada — são inseparáveis na guerra popular; 6) o Partido, isto é, o político, é o predominante desses aspectos; 7) numa palavra, o trabalho militar é tarefa de todos os comunistas e não apenas de especialistas.”

Transbordando otimismo revolucionário e confiança no partido em superar as dificuldades e erros e no triunfo da revolução, assim Pedro Pomar conclui sua avaliação:

“Nosso Partido, sem embargo de ter sido duramente golpeado e sofrido sérias perdas, já não é o mesmo de 1972. Também ganhou experiência. Portanto, para transformar as presentes condições desfavoráveis, cumpre-nos persistir em nossa política de frente única, concentrar mais esforços para ganhar as grandes massas operárias e camponesas, revolucionarizar mais nossas fileiras, defender com firmeza nossa organização e acelerar a preparação militar. Tudo indica que os horizontes vão clareando para o povo brasileiro. A bandeira da luta armada, que empunharam tão heroicamente e pela qual se sacrificaram os camaradas do Araguaia, deve ser erguida ainda mais alto. Se conseguirmos de fato nos ligar às grandes massas do campo e das cidades e ganhá-las para a orientação do Partido, não importa qual seja a ferocidade do inimigo, com toda certeza a vitória será nossa.”

 COMUNICADO Nº 6 DAS FORÇAS GUERRILHEIRAS DO ARAGUAIA

Com grande pesar e profundo sentimento revolucionário, as Forças Guerrilheiras do Araguaia Comunicam a morte em combate da heróica e devotada lutadora da causa do povo HELENIRA RESENDE.

Quando cumpria um encargo de observação, Helenira foi descoberta por um Bate-pau e em seguida cercada por soldados acantonados no lugarejo denominado São José. Não se atemorizou. Atirou enquanto pôde. Atingida por uma rajada da metralhadora, caiu mortalmente ferida, derramando se sangue pela liberdade e pela independência da pátria. Cumpriu com honra e dignidade seu dever de membro das forças guerrilheiras do Araguaia.

Universitária e dirigente da União Nacional dos Estudantes, Helenira veio para o campo com o objetivo de ligar-se aos camponeses e participar de suas lutas, sendo conhecida pelo nome de Fátima na região em que morava. Tornou-se muito estimada por todos os que a conheciam. Ao sobrevir o ataque das forças da ditadura contra os moradores do Sul do Pará, incorporou-se aos que resistiram de armas na mão . Revelou grande coragem, espírito de iniciativa e capacidade de comando. Gozava de imenso prestígio entre seus companheiros.

O exemplo revolucionário de Helenira Resende jamais será esquecido pelo povo, em particular pela juventude. Os estudantes lembrar-se-ão sempre daquela que , além de guerrilheira, se destacou como valorosa militante do movimento democrático.

Reverenciando a memória e tão brava combatente, o comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia, decide dar seu nome ao grupo ao qual ela pertencia.

O grupo de combate Helenira Resende há de crescer e realizar proezas dignas dessa heroína de povo brasileiro.
Honra e glória a Helenira Resende!
Morte aos que perseguem e atacam os moradores e os combatentes do Araguaia!
Por um Brasil livre e independente!

O Comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia