A seguir reproduzimos artigo enviado por um companheiro, que se trata de uma crítica marxista ao filme Interestelar (Cristopher Nolan, 2014).

Achamos importante que todos façam críticas à cultura pop, partindo de que esta serve ao imperialismo ianque, principalmente.

Vamos ao artigo:

 

Atualização [18 de setembro 2019]: O autor reenviou uma reedição de seu texto, que altera um pouco suas conclusões. Recomendamos que quem tenha lido na data de publicação original, releia o texto.

 

Interestelar: Uma ficção sobre como salvar o imperialismo norteamericano da ruína

Por Cleiton Mota

A filosofia por trás do filme: Em essência, Interestelar é um filme idealista, sendo que sua 'parte científica' é só pra entreter os geeks. De fato, é só mais uma ficção norteamericana padrão, cujo discurso central é os EUA salvarem o mundo, apesar dos pesares.

O futuro distópico pós-socialismo e pós-capitalismo é um clássico já desde que existe cinema e desde que os EUA financiam sua máquina de propaganda pra espalhar medo e ao mesmo tempo se oferecerem como salvadores da humanidade, sendo assim, nada de novo.

Porém antes das considerações críticas, vamos destrinchar seu conteúdo.

O discurso central: A humanidade passou por uma grande transformação. Implicitamente, o sistema caitalista-financeiro-industrial ruiu dando lugar a uma sociedade agrária. Um novo tipo de feudalismo hi-tech e uma nova era das trevas para a ciência. A história repete a morte da razão que dá lugar ao obscurantismo e uma ideologia baseada na subsistência. A narrativa vencedora no tempo presente do filme (futuro pra nós), é o que hoje é considerado como 'contra-corrente', ou seja, a narrativa anti-americana de um lado e o obscurantismo científico de outro.

Nesse sentido, a vanguarda do novo mundo (o neo-iluminismo) é representada pelos remanescentes técnicos-cientistas e soldados da era dourada do capitalismo. É uma nova revolução tecnocrata nascente.

Outras nações se tornaram potências tecnológicas e militares (India), os EUA perderam o posto de superpotência única e hegemônica, aparentemente são dominados (inexistência de um Exército permanente).

O Estado, como organização social das ideias dominantes nesse futuro (anti-ciência), não investe mais em pesquisa. Como não existe mais Exército, o avanço científico também é freado. O que sobrou dos soldados americanos foram máquinas ulta-inteligentes (e toscas), praticamente o que sobrou do que fora os EUA no passado é a NASA, esta que aparece como único símbolo nacional. Aqui a coluna vertebral do Estado não é mais o Exército, mas sim, a NASA.

Assim como no ruir do feudalismo, navegar era preciso, agora é necessário desbravar o Espaço. Nessa toada, Cooper (protagonista) é o novo Colombo. A diferença é que agora a busca por um novo lar tem uma causa nobre: A salvação de toda humanidade. Assim, os astronautas  exploradores do Espaço são considerados as pessoas mais nobres, destemidas e desprendidas, aquelas que se preocupam com o futuro.

Vamos à crítica:

O conflito central do filme é desenvolvido, não entre ciência e metafísica, como muitas análises dão a entender, mas sim, um dilema ético entre o egoísmo e altruísmo. Na base disso, que parece progressista, há um discurso conservador, contudo. Aquele no filme que mais se preocupa em proteger a própria família é quem no final se mostra como o maior defensor de toda humanidade. Ou seja, existe aí uma defesa do núcleo familiar como a realização da humanidade e o instinto de autopreservação (seu e de sua prole) como o mais natural de nossa espécie. Cooper, mesmo quando aceita deixar sua família, o faz com intuito de salvá-la. Essa narrativa é obviamente conservadora, pois despreza e submete todos os grandes exemplos na história da humanidade de desprendimento total de qualquer sentimento de autopreservação, de mulheres e homens que entregaram a vida apenas em nome de um brilhate futuro da humanidade. Apenas pra citar um exemplo, a batalha dos povos do mundo contra o nazifascismo, ademais de milênios de guerras justas contra opressão, em que cada uma tem seus próprios exemplos de heroísmo. Os chineses criticaram muito esse tipo de literatura e cinema que se deu na época da URSS social-imperialista, anos 60, cujo centro era a teoria da sobrevivência e da autopreservação.

O amor pela família, em última instância, é a razão da vida (de acordo com o filme), numa alegoria bíblica com a Paixão de Cristo (Cooper volta com 3 anos e as missões chamadas de Lázaro em referência à passagem bíblica). O amor familiar supera a paixão ou o amor dos relacionamentos a dois (conflito entre Dra. Brandt e Cooper), pois nos relacionamentos amorosos, há uma debilidade, em que existe paixão pelo indivíduo, em que a razão se compromete, o materialismo dá lugar à metafísica e a objetividade dá lugar ao subjetivismo, mesmo numa mente racional e científica como a Dra Brandt. Interessante notar o conteúdo reacionário pregado aqui como a natureza frágil da mulher, pois é a Dra Brandt que sucumbe ao amor individual.

O professor Mann, (o mais brilhante) representa a frieza e o calculismo dos cientistas ‘duros’, é como o extremo oposto de Brandt, é uma crítica ao positivismo ‘linha dura’, por desprezar as relações humanas afetivas como nossa essência e a identifica como uma falha e a causa de todo egoísmo e individualismo. De forma dialética, Mann acredita que o individualismo e o instinto de sobrevivência individual é a chave da evolução humana e por isso ‘o homem é lobo do homem’, por natureza, contradição ainda não superada pela evolução. É a filosofia clássica do capitalismo nascente, do egoísmo como natureza humana, aqui é criticado por um viés cristão.

Seu mentor é Dr. Brandt, pai da Dra Brandt, que mente sobre existir um plano de salvamento de toda espécie, mas que na verdade é um genocida que escolhe deixar todos na Terra morrer para ter mais chances de exportar óvulos fecundados a outra galáxia. É um velho barbudo e simpático, sinal da sabedoria que de tão brilhante se tornou insensível, é uma afirmação em tom de sermão de como é possível se tornar um genocida com a melhor das intenções. Sutil.

Dessa forma, como Cooper triunfa ao tentar proteger sua família, se prova de que o amor de pai pra filha é que é transcendental.

Em resumo, é um filme cristão-conservador. O filme desconsidera o desenvolvimento da ciência como fruto da sociedade dividida em classes e a luta entre elas (em luta por produção). Em nenhum momento se discute o modo de produção. Fala apenas em humanidade, como se os destinos e os rumos houvessem sido escolha de toda humanidade, não das classes dominantes em luta contra oprimidos. Por métodos antidemocráticos, inclusive, é que se chega a uma solução final para salvar a espécie., ignorando opinião das massas, já que essas seriam ignorantes quanto à necessidade de pesquisa espacial.  Não são as massas que movem a história, mas indivíduos brilhantes.

Os EUA são o centro da sociedade mais avançada e, assim, sua defesa enquanto vanguarda da humanidade seria de interesse de toda humanidade, contrapõe totalmente a realidade de que trata-se de uma nação em crise, uma potência imperialista em agonia, escravizadora, delinquente e genocida. Nesse sentido, uma propaganda pró-EUA e de negação da luta de classes. Passa a perspectiva de que o capitalismo é ruim, mas através dele, teremos um período de trevas que será salvo por um novo renascimento em que uma nova burguesia iluminada salvará a humanidade e, é claro, eles nunca têm dúvidas que será nos EUA que isso se dará. O chovinismo nacionalista é uma constante.

Outra afirmação reacionária que o filme faz é de que o Exército ianque seria o motor do progresso científico-tecnológico da humanidade, quando na verdade, é a maior máquina de destruição já criada em toda História.

O que pode parecer minimamente positivo no filme:

A ideia de que o conhecimento humano não é infinito, mas sim limitado (não em cada indivíduo ou geração, mas em geral), cuja base filosófica é Kant, um dos maiores idealistas da história, é combatida pela personagem principal. Isso desmascara de alguma forma os neo-positivistas de hoje como neo-kantistas. Kant foi desbancado pela escola materialista no século XIX. Quem defende essa posição reacionária no filme é Dr. Mann.  Porém, no desenrolar do filme, o que fica evidente é que a  ideologia do filme é algo parecido com um antropocentrismo religioso, pois mostra ao final, que a ideia de Deus é a humanidade evoluída. Aqui há duas formas de enxergar: A evolução humana nos leva mais perto de Deus, ou que Deus é a própria realização da humanidade plena. Nesse sentido, a tentativa de romper com a metafísica e o idealismo de Kant se revela como outro tipo de idealismo, muito presentes hoje na Física Quântica, que leva alguns cientistas, ao esbarrarem na limitação de nosso conhecimento, atribuir o desconhecido a Deus (Ex.: partícula de Deus, impacto inicial etc), caindo no misticismo religioso e esoterismo. É a ideia dos deuses astronautas, consagrada no livro best-seller metafísico e farsante homônimo, que virou piada em séries de TV estadunidenses a que atribuem toda evolução do conhecimento e progresso científico humanos como obra de extraterrestres do passado.

Conclusão: O filme não apresenta nada de inovador, revolucionário ou de defesa da ciência, como erroneamente muitos especialistas, entendidos na área e comentaristas de cinema afirmaram nos últimos anos. Trata-se de uma propaganda pró-ianque religiosa e de mistificação do pensamento científico, que corresponde à ruina intelectual da burguesia imperialista.